O Paradoxo da IA: Estamos a fechar a porta ao futuro do Talento Jovem?
Neste último ano, a conversa nas salas de decisão e nos departamentos de People & Culture tem um tema central: a eficiência gerada pela Inteligência Artificial. Como especialista em Employer Branding, vejo com entusiasmo a adoção destas tecnologias por parte das nossas organizações. No entanto, sinto o dever de levantar um alerta vermelho sobre um efeito secundário perigoso: a progressiva escassez de oportunidades para o Talento Jovem, uma tendência que está a emergir a nível mundial.
A Armadilha da Eficiência Imediata
É tentador pensar que, se uma IA consegue redigir um relatório, analisar dados básicos ou gerar código em segundos, já não precisamos de estagiários ou perfis juniores. Mas este raciocínio é uma miopia estratégica.
Quando eliminamos as funções de entrada, estamos a quebrar a cadeia de sucessão. Se não formarmos os profissionais hoje, quem serão os seniores e os diretores daqui a cinco ou dez anos? A IA é uma excelente ferramenta de execução, mas carece de algo inerente ao ser humano: contexto, ética e visão crítica.
O Valor Insubstituível da Nova Geração
As novas gerações não trazem apenas “mão de obra”, trazem um “mindset” disruptivo. Elas são o motor da inovação porque:
- Questionam o Status Quo: Não estão formatadas pelos processos antigos.
- Nativos da Co-criação com IA: Eles não “usam” a IA, eles colaboram com ela de forma orgânica.
- Diversidade de Pensamento: A inovação nasce da fricção entre a experiência dos seniores e a irreverência dos juniores.
A Lição do Internship-Based Learning (IBL)
Recentemente, li uma reflexão profunda sobre o impacto dos programas de estágio (referência ao conceito de Internship-Based Learning). O ponto central é que a aprendizagem em contexto real é insubstituível.
O modelo de Internship-Based Learning defende que o estágio não é apenas um “período de teste”, mas um ecossistema de desenvolvimento de competências críticas que a academia não consegue simular. Numa era dominada por algoritmos, as soft skills desenvolvidas num ambiente de trabalho real — empatia, resiliência e colaboração — tornam-se o nosso maior ativo competitivo.
Employer Branding: Mais do que Atração, é Sustentabilidade
Para as empresas, investir em talento jovem em 2026 não é um ato de caridade; é uma estratégia de sobrevivência de marca. Uma marca empregadora forte é aquela que comunica claramente: “Aqui, a tecnologia serve para potenciar o teu crescimento, não para te substituir.”
Precisamos de redesenhar os nossos programas de talento para que o foco não seja a tarefa repetitiva (que a IA já faz), mas sim a capacidade de curadoria, gestão de ferramentas e resolução de problemas complexos.
Conclusão
A Inteligência Artificial deve ser o “co-piloto”, mas o Talento Jovem é o combustível que mantém o motor da inovação ligado. Se fecharmos a porta aos juniores hoje, estaremos a condenar a relevância das nossas empresas amanhã.
Como líderes, o nosso papel é garantir que a tecnologia abre caminhos, em vez de criar barreiras. O futuro do trabalho não é Humano vs Máquina, mas sim Humano + Máquina + Propósito.
Nota: Este artigo foi escrito sem recurso à Inteligência Artificial, sendo todo o seu conteúdo propriedade intelectual do seu autor.
Sobre o Autor
Miguel Luís
Marketing & Employer Branding Director @The Key Talent
Fundador da Comunidade Employer Branding Portugal
Com mais de 20 anos de experiência profissional nas áreas de Gestão de Pessoas (Recursos Humanos) e Marketing/Comunicação, sou o que gosto de designar de Ma(RH)keter.